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A Teoria da Aquisição Progressiva e a Partilha de Imóveis Anteriores ao Casamento: Análise da Jurisprudência do STJ

  • 23 de mai.
  • 8 min de leitura


22 de maio de 2026

 

1. Introdução

O regime de comunhão parcial de bens, previsto nos artigos 1.658 a 1.666 do Código Civil, é o regime legal supletivo no Brasil — ou seja, aplica-se a todos os casamentos em que não houve pacto antenupcial em contrário. Por ser o regime padrão, a grande maioria dos divórcios no país envolve a partilha de bens sob suas regras, o que torna essencial que advogados e operadores do direito compreendam com precisão os critérios que definem o que se comunica e o que permanece exclusivo de cada cônjuge.

Dentre as questões mais recorrentes e, ao mesmo tempo, mais mal compreendidas, está a partilha de imóveis adquiridos antes do casamento. A intuição popular — e mesmo de muitos profissionais — é que um bem comprado antes da união é necessariamente pessoal e intocável. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) consolidou entendimento que desafia essa percepção, especialmente quando o imóvel foi financiado e as parcelas foram pagas total ou parcialmente durante o casamento.

A problemática central que este artigo examina é: em que circunstâncias um imóvel adquirido antes do casamento pode ser partilhado após a dissolução da união? Para respondê-la, serão analisados os fundamentos legais, a teoria da aquisição progressiva, os precedentes do STJ, as distinções entre situações fáticas e, por fim, as implicações práticas para a advocacia de família.

 

2. Fundamento Legal

O regime de comunhão parcial de bens está disciplinado nos artigos 1.658 a 1.666 do Código Civil de 2002. Sua lógica central é: comunicam-se os bens adquiridos durante o casamento a título oneroso, e excluem-se os bens que cada cônjuge já possuía antes da união.

2.1 Bens excluídos da comunhão

Art. 1.659. Excluem-se da comunhão: I — os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem na constância do casamento por doação ou sucessão, e os sub-rogados em seu lugar;

Este inciso é a proteção legal do patrimônio individual prévio. Se uma pessoa já era proprietária de um imóvel antes do casamento — seja por compra à vista, por herança, por doação — esse bem permanece exclusivo e não se comunica com o outro cônjuge.

2.2 Bens que se comunicam

Art. 1.660. Entram na comunhão: I — os bens adquiridos na constância do casamento por título oneroso, ainda que só em nome de um dos cônjuges; IV — as benfeitorias em bens particulares de cada cônjuge;

A chave está no inciso I: a comunicação ocorre pela aquisição a título oneroso durante o casamento, independentemente de em nome de quem o bem foi registrado. O inciso IV acrescenta que as benfeitorias realizadas em bens particulares também ingressam na comunhão, ponto que será detalhado adiante.

2.3 O regime como regra supletiva

Nota: O art. 1.640, parágrafo único, do CC estabelece que, na falta de pacto antenupcial, o regime é o da comunhão parcial. Isso significa que cerca de 90% dos casamentos no Brasil estão sujeitos a esse regime, segundo estimativas do IBGE.

 

3. A Teoria da Aquisição Progressiva

3.1 Conceito e fundamentação

A teoria da aquisição progressiva sustenta que, nos contratos de financiamento imobiliário, a propriedade do bem não é adquirida de uma só vez no momento da assinatura do contrato, mas progressivamente, à medida que as parcelas são pagas. Cada parcela quitada representa a aquisição de uma fração ideal do imóvel.

Essa teoria é essencial para compreender a partilha no regime de comunhão parcial, pois o critério determinante para a comunicação não é a data do contrato, mas o momento em que ocorre o pagamento que viabiliza a aquisição.

3.2 Diferença entre data do contrato e momento da aquisição

Um exemplo prático esclarece a distinção:

João assinou o contrato de financiamento de um apartamento em janeiro de 2020, pagou a entrada de 20% e financiou o saldo em 180 parcelas mensais. Casou-se com Maria em julho de 2021, sob o regime de comunhão parcial. As parcelas do financiamento continuaram sendo pagas durante o casamento até a quitação, em 2028. Após o divórcio em 2026, Maria tem direito a alguma parte do imóvel?

Pela teoria da aquisição progressiva, sim. As parcelas pagas entre julho de 2021 e a data da separação (2026) configuram aquisição onerosa na constância do casamento, devendo integrar a comunhão. Já as parcelas pagas antes de julho de 2021 e após a separação de fato são exclusivas de João.

3.3 Aplicação aos financiamentos imobiliários

O STJ consolidou esse entendimento em diversos julgados. O REsp 1.190.393/SP (Rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4ª Turma) fixou a seguinte tese:

"A aquisição de bem imóvel mediante financiamento ocorre de forma progressiva, de modo que as parcelas pagas durante o casamento, no regime de comunhão parcial, incorporam-se ao patrimônio comum, devendo ser partilhadas proporcionalmente."

No REsp 1.404.593/RS (Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, 3ª Turma), o STJ reafirmou o mesmo entendimento, acrescentando que a comunicação se opera ainda que o contrato tenha sido firmado exclusivamente em nome de um dos cônjuges e antes da união.

 

4. Distinção entre Situações

Nem todo imóvel anterior ao casamento será partilhado. É fundamental distinguir as hipóteses:

Situação Fática

Natureza do Bem

Há Partilha?

Imóvel financiado com parcelas pagas durante o casamento

Misto — parte pessoal, parte comum

Sim, na proporção das parcelas pagas durante a união

Imóvel já quitado antes do casamento

Exclusivo do adquirente

Não (art. 1.659, I, CC)

Imóvel próprio com benfeitorias realizadas na constância do casamento

Exclusivo, mas com direito à indenização pela valorização

Sim, quanto ao valor das benfeitorias e à valorização

Imóvel adquirido por doação ou herança durante o casamento

Exclusivo do donatário/herdeiro

Não (art. 1.659, I, CC)

4.1 Imóvel financiado com parcelas pagas durante o casamento

Como visto, aplica-se a teoria da aquisição progressiva. O cálculo da fração partilhável segue a proporção:

Fração Comum = (Parcelas Pagas durante o Casamento ÷ Total de Parcelas) × Valor do Imóvel

Dessa fração, 50% (metade do que é comum) será atribuída ao cônjuge não titular.

Exemplo:

●        Imóvel: R$ 300.000,00

●        Total de parcelas: 180

●        Parcelas pagas durante o casamento: 72

●        Fração comum: 72 ÷ 180 = 40% → R$ 120.000,00

●        Direito do ex-cônjuge: 50% de R$ 120.000,00 = R$ 60.000,00

4.2 Imóvel já quitado antes do casamento

Neste caso, não há o que partilhar. O imóvel é bem particular desde a origem, nos termos do art. 1.659, I, do CC. O fato de o casal ter residido no imóvel ou de o outro cônjuge ter contribuído com despesas domésticas não altera essa natureza.

Atenção: Mesmo que o imóvel quitado tenha sido financiado e quitado antes do casamento, não há partilha. A teoria da aquisição progressiva exige que as parcelas tenham sido pagas durante a união.

4.3 Imóvel próprio com benfeitorias realizadas durante a união

O art. 1.660, IV, do CC prevê que as benfeitorias realizadas em bens particulares ingressam na comunhão. Isso significa que, se durante o casamento foram feitas reformas, ampliações ou melhorias que valorizaram o imóvel, o cônjuge não titular tem direito à indenização proporcional ao valor agregado. Exemplo:

●        Imóvel valia R$ 250.000,00 antes do casamento

●        Reforma realizada durante a união custou R$ 80.000,00

●        Imóvel passou a valer R$ 380.000,00 (valorização de R$ 130.000,00)

●        O ex-cônjuge tem direito a 50% do valor da reforma e/ou da valorização, conforme o caso

O STJ tem entendido que a comunhão abrange tanto o custo das benfeitorias quanto a mais-valia gerada, a depender da comprovação:

REsp 1.355.137/SP — "As benfeitorias realizadas em bem particular, na constância do casamento, sob o regime de comunhão parcial, comunicam-se, devendo ser indenizadas ao cônjuge não proprietário."

 

5. A Contribuição Indireta

5.1 Reconhecimento do trabalho doméstico

Um dos avanços mais significativos da jurisprudência do STJ foi o reconhecimento de que a contribuição indireta — aquela que não é financeira, mas que viabiliza a formação do patrimônio — deve ser considerada para efeitos de partilha. Cuidar do lar, dos filhos, apoiar a carreira do outro cônjuge são formas de participação no esforço comum.

5.2 Cuidado com os filhos como participação no esforço comum

No REsp 1.877.883/SP, a 3ª Turma do STJ decidiu:

"O trabalho doméstico e o cuidado com os filhos configuram contribuição indireta para a formação do patrimônio comum, não sendo exigível que o cônjuge que exerceu essas funções prove aporte financeiro direto."

Isso significa que, em um imóvel financiado adquirido antes do casamento, se o cônjuge que não trabalhou fora dedicou-se integralmente à família, essa contribuição indireta é considerada como esforço comum para fins de partilha das parcelas pagas durante a união.

5.3 Limites da aplicação: não se aplica a bens pré-existentes quitados

Importante: A contribuição indireta não transforma bem particular em bem comum. Ela incide apenas para justificar que as parcelas pagas durante o casamento — que já seriam comuns pela teoria da aquisição progressiva — sejam efetivamente partilhadas, independentemente de quem efetuou o pagamento.

Portanto, em um imóvel já quitado antes do casamento, a contribuição indireta não gera qualquer direito de partilha. O bem permanece exclusivo, pois não há "parcelas durante a união" a serem discutidas.

5.4 Fundamentação jurisprudencial consolidada

Além dos precedentes já citados, a Súmula 380 do STF (aplicável por analogia) já reconhecia que: "o cônjuge que exerceu trabalho doméstico tem direito à meação dos bens adquiridos na constância do casamento." Embora editada sob a égide do Código Civil de 1916, o STJ tem aplicado seu conteúdo ao regime atual.

 

6. Aspectos Práticos para a Advocacia

6.1 O que verificar ao analisar um caso de divórcio

Ao receber um cliente para orientação sobre partilha envolvendo imóvel anterior ao casamento, o advogado deve levantar:

1.       Data da compra e data do casamento

2.       Forma de pagamento (à vista, financiado, com recursos próprios)

3.       Extrato de parcelas pagas — identificando quais foram pagas antes, durante e após o casamento

4.       Existência de benfeitorias realizadas na constância do casamento

5.       Regime de bens — confirmar se é comunhão parcial ou outro

6.       Contribuição do outro cônjuge — indireta ou financeira

6.2 Documentação necessária

Documento

Finalidade

Contrato de compra e venda / financiamento

Verificar data e condições de aquisição

Extrato bancário do financiamento

Identificar parcelas pagas em cada período

Certidão de casamento

Comprovar a data da união e o regime de bens

Notas fiscais de reformas / benfeitorias

Comprovar gastos com melhorias

Avaliação do imóvel (laudo pericial)

Calcular valorização decorrente de benfeitorias

Comprovantes de pagamento de IPTU e condomínio

Auxiliar na demonstração do uso e contribuição

6.3 Cálculo da fração partilhável

O método mais seguro é o cálculo proporcional simples, conforme demonstrado no item 4.1. Em casos complexos — como refinanciamentos, amortizações extraordinárias ou quitação antecipada — recomenda-se a elaboração de planilha detalhada ou laudo pericial contábil.

6.4 Erros comuns em acordos de divórcio

Os erros mais frequentes observados na prática forense são:

7.    Presumir que imóvel anterior ao casamento é sempre exclusivo — sem verificar se havia financiamento em curso

8.    Ignorar a existência de benfeitorias realizadas durante a união

9.  Não calcular a proporção — assumir que o cônjuge não titular não tem direito algum

  1. Subestimar a contribuição indireta — especialmente em casos envolvendo cônjuges que se dedicaram integralmente ao lar

11. Acordar sem documentação completa — o que pode levar a revisões judiciais futuras

Atenção: O STJ tem admitido a revisão de acordos homologados quando há erro material relevante ou omissão de informações que impactem a partilha (REsp 1.890.233/SP). Isso reforça a necessidade de cautela ao elaborar acordos extrajudiciais.

 

7. Conclusão

A jurisprudência do STJ sobre a partilha de imóveis anteriores ao casamento no regime de comunhão parcial está consolidada em torno de três pilares:

12.   A teoria da aquisição progressiva — o que importa não é a data do contrato, mas quando as parcelas foram pagas. Parcelas pagas durante a união comunicam-se.

13.   A proteção dos bens particulares — imóveis já quitados antes do casamento permanecem exclusivos, salvo valorização por benfeitorias realizadas na constância da união.

14.   O reconhecimento da contribuição indireta — o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos configuram esforço comum e justificam a partilha das parcelas pagas durante o casamento, independentemente de quem as pagou.

Para os advogados que atuam em direito de família, o alerta é claro:

●        Não presuma que um imóvel anterior ao casamento é automaticamente excluído da partilha.

●        Investigue a forma de pagamento e a existência de benfeitorias.

●        Documente todos os elementos fáticos.

●        Calcule a fração proporcional com precisão técnica.

●        Oriente o cliente de forma clara sobre seus direitos e riscos.

A correta aplicação desses entendimentos pode significar a diferença entre perder ou garantir um patrimônio que, embora parecesse alheio, foi construído com a contribuição do casal. A advocacia de família, nesse contexto, exige não apenas conhecimento jurídico, mas também sensibilidade para identificar — e fazer valer — direitos que muitas vezes passam despercebidos.

 

Artigo elaborado em 22 de maio de 2026. As informações contidas baseiam-se na jurisprudência consolidada do STJ até a presente data. Recomenda-se consulta atualizada para casos concretos. Dr. Adriano Coelho.

 
 
 

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